Recentemente, recebi da Smithers (www.smithers.com), consultoria internacional sediada na Inglaterra e que tem um acompanhamento estatístico do setor gráfico mundial de décadas, a previsão de demanda mundial das principais linhas de produtos gráficos até 2030.
O acompanhamento e a projeção que fazem são baseados na maior ou menor substituição de produtos gráficos por equivalentes digitais ao longo do tempo.
Trago isso porque constantemente sou perguntado sobre o futuro do setor, se há ou não, especialmente daqueles que estão produzindo materiais com visível queda de consumo.
Pois bem, as três linhas principais de produtos examinadas nessa estatística são as de publicação (ou editorial), que engloba revistas, jornais, livros, guias, diretórios e outros; a de embalagens e rótulos; e outros produtos gráficos, ou o que comumente chamamos de impressão comercial. E aqui há uma vastidão de produtos: material promocional, material administrativo, sinalização, comunicação visual, decoração e muitos outros.
A linha editorial apresentou uma queda entre 2014 e 2024 de 30,6% e até 2030 outros 3,5%. Muito se deve a queda em revistas, jornais, listas telefônicas e outros diretórios, incluindo os relatórios anuais.
A parte resiliente desse mercado é a dos livros impressos que ainda segue com força, embora as tiragens médias tenham diminuído e muitos sistemas educacionais continuem forçando o uso eletrônico. Tem havido alguns recuos nesse sentido dado os resultados de pesquisas que mostram maior aprendizado no ensino infantil e no fundamental ocorrem com o uso de material impresso. Países como a Suécia, por ex., que já haviam digitalizado toda a aprendizagem e estão revendo essa política pela queda nos resultados de alfabetização.
Os e-books ainda são uma parte pequena do mercado e outras configurações digitais diversificam a leitura, mas não substituem o impresso. A questão aqui, especialmente no Brasil, está mais ligada à falta de hábito de leitura e a quantidade de livros lidos per capita. Há, no entanto, nichos interessantes nesse mercado, especialmente os relacionados a baixas tiragens e o uso da impressão digital.
Na impressão comercial tivemos uma queda de 14% de 2014 até 2024 e uma projeção de estabilidade nesse patamar até 2030.
A queda de material promocional é sensível. Basta olhar o decréscimo anual na produção de papel couchê, desde a pandemia, com máquinas sendo voltadas para a produção de papel para embalagem. O avanço do marketing digital é sensível, deixando ao papel um papel de relevância e destaque de mensagens promocionais, mas com tiragens reduzidas.
Por outro lado é crescente a utilização de comunicação visual em diferentes formas, seja no mercado de mídia externa, seja nas comunicações usadas em diferentes ambientes e com diferentes materiais, da lona ao tecido e com interações com o mundo digital. Aplicações cada vez mais criativas e ousadas, aliadas as novas tecnologias digitais, especialmente o inkjet, permite que se “imprima” um autódromo, um estádio, um bar ou uma casa inteira, do chão ao teto, passando pelos móveis e paredes. Parte do que chamamos de novo mundo de impressão das coisas. Que vai além do papel e com os mais diversos substratos. Há inúmeras oportunidades nesse campo, mas pensar fora do horizonte tradicional da gráfica é fundamental
Por fim, a linha de embalagens e rótulos que é extensa, incluído as embalagens impressas em ondulado e em plástico, as flexíveis e rótulos e etiquetas de diferentes formas, só apresenta crescimento. De 33% de 2014 a 2024 e uma projeção de 19% mais até 2030.
Sem dúvida a linha de produtos com menor substituição por aplicações digitais e amplamente beneficiada pelas mudanças demográficas ocorridas nos últimos anos, com aumento da média de idade das pessoas, maior urbanização, maior variedade de produtos e maior distribuição, incluindo nisso o impulso do e-commerce.
Há inúmeros nichos nesse mercado. De pequenas tiragens a produções personalizadas e específicas para grupos específicos. E uma busca crescente para produtos sustentáveis com embalagens sustentáveis.
Enfim, o mercado gráfico mundial projetado para 2030 deve atingir um faturamento anual próximo de 1 trilhão de dólares. Além disso, o investimento em equipamentos de pré-impressão, impressão, acabamentos e sistemas, no Brasil, em 2024, passa de US$1,1 bilhão de dólares. É isso mesmo, mais de um bilhão de dólares.
E ainda me perguntam se o setor tem futuro. Só não tem para os que ainda não conseguiram entender as mudanças dos consumidores, das marcas, das tecnologias e do contexto geral.
E que não deve ser o seu caso, não é verdade?
Hamilton Terni Costa
Consultor Senior internacional
AN Consulting/Ciglat
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